A Ética (filme curta metragem)

O crítico de cinema Pablo Villaça (blog aqui, site aqui) resolveu mudar de lado, pelo menos por um momento. Em vez de ser as "pedras", passou a ser a vidraça e dirigiu e roteirizou seu primeiro curta metragem: "A Ética".

O vídeo está disponibilizado em vários lugares, como no Youtube e no site Vimeo. A melhor versão, de alta definição com 150 MB, pode ser baixada aqui.

É um curta metragem mesmo, com apenas 15 minutos. Mas, além de ser curta no tamanho, também é um curta pela "curtição". O filme é muito bem feito, em todos os aspectos. Em primeiro lugar, os aspectos técnicos: a fotografia estava impecável. Graças a Deus nenhum problema de saturação de cores (Tropa de Elite, estou falando com você), e os tons escuros empregados servem perfeitamente para dar o clima e o tom do filme. A edição ficou muito boa, inclusive contando com um flashback importantíssimo no anti-clímax. Uma das poucas falhas que poderia ser notada estava no enquadramento e na movimentação da câmera. O enquadramento dos atores (ótimos, por sinal) ficou meio "básico". Com certeza está mil vezes melhor que o enquadramento usado nas emissoras de TV's brasileiras. Mas poderia ficar ainda melhor se o "Ético" (um dos protagonistas) ficasse dentro de um quadro amplo, para representar a sua grandeza e, ao mesmo tempo, a sua pequenez. Ao mesmo tempo o "doutor" (a outra personagem) deveria ficar em um quadro fechado para dar a noção de sua condição. Outro pequeno problema encontra-se na movimentação da câmera. Ok, ela tem que se movimentar daquele jeito para expressar nervosismo, mas não deveria deixar o expectador igualmente nervoso. Uma passagem mais natural ou mesmo alguns enquadramentos amplos com as duas personagens (de maneira análoga ao teatro) poderia funcionar melhor, pois a expressão dos atores já trazia todos os sentimentos esperados pelo diretor / roteirista : medo, dúvida, terror, ódio, preocupação, surpresa. Obviamente enquandramentos amplos são uma coisa. Outra coisa é o "enquadramento" usado em televisão, principalmente nas novelas, de qualidade altamente duvidosa. Nesse ponto não há problemas com A Ética: ele não se parece com nada que vemos na TV, graças a Deus. Parece realmente uma produção para cinema.

Felizmente esses problemas são mínimos e não atrapalham em nada a história e a atuação dos atores. Vamos falar sobre eles. A história toda ocorre em um galpão abandonado. Um homem está sentado, amarrado e ouvindo o discurso de um outro homem. Um discurso sobre ética. Mal sabe o doutor que esse Ético é um assassino. Um assassino com uma ética própria, que ele faz questão de descrever e até de sentir orgulho. O filme busca a reflexão sobre a diferença entre ética e moral. Uma ação tão cruel como o assassinato pode ter ética mesmo sendo imoral?

A atuação dos atores (Carlos Magno Ribeiro, Ílvio Amaral, Jota Dângelo) esteve impecável. Seria possível realizar um longa metragem com eles sem maiores problemas. O roteiro foi consistente e deixou sutilmente algumas pistas do "gran-finale" durante o primeiro ato e o segundo. Como primeira direção de produção cinematográfica, também esteve consistente e tranquila. O diretor tem a função de conduzir os espectadores dentro da história escrita pelo roteirista. E foi exatamente isso que Villaça fez neste filme.

Se este é só o primeiro trabalho de Pablo Villaça, roteirista e diretor, fica a expectativa dos próximos trabalhos. Pablo conseguiu algo muito difícil: trazer a sua competência como crítico para dentro do set de filmagens. E fez um ótimo trabalho.

Tipo: 
filme
Nota: 
8.5