O Serviço Netflix

Anunciado meio que de surpresa, o serviço de filmes online Netflix foi lançado no Brasil. Com um mês de acesso grátis, resolvi experimentar o serviço. Veja como foi.

Para falar do Netflix, primeiro preciso falar de dois outros serviços.

Depois do sucesso do primeiro Tropa de Elite, o ator Caio Junqueira participou de uma campanha publicitária para uma locadora virtual chamada My Movies. O usuário da locadora entrava no site dela e escolhia uma lista de filmes.

De acordo com a mensalidade escolhida pelo cliente, ele receberia um certo número x de filmes por vez, enviados por um motoboy. Quando a pessoa terminasse de ver os filmes (não necessariamente todos os x) bastaria entrar no site para solicitar ao motoboy para que ele buscasse os filmes já vistos e para que trouxesse os próximos filmes da lista.
Uma solução bem mais interessante e barata do que alugar os filmes em locadoras convencionais. Como o custo da infraestrutura (motoboys, filmes, etc.) era elevado, o serviço acabou sendo descontinuado. Guarde essa informação um pouco, pois retornaremos a ela em breve.

O segundo serviço que eu preciso falar antes de falar do Netflix é o serviço de filmes e seriados online, que está disponível em diversos sites. Assisti a primeira e única temporada da série Flashforward totalmente online no site do portal Terra, em uma área denominada "Terra TV". Infelizmente, é exatamente esse o problema: por ser um serviço gratuito - que deveria ter um diferencial por ser via internet - ele tem os mesmos defeitos da exibição de filmes e séries na TV aberta:

  • Falta de opções entre legendado e dublado
  • Diversos intervalos comerciais

e defeitos exclusivos do Terra TV:

  • A qualidade da compressão do vídeo deixa muito a desejar
  • Os comerciais se repetiam ad nauseam, irritando o expectador, que acaba optando por comprar o box da série/filme ou baixá-lo por vias, digamos, alternativas

Em meio a tudo isso surgiu, nos EUA, um serviço que permite ao usuário assistir a quantos filmes ou séries desejar, bastando para isso o pagamento de uma mensalidade. Esse serviço é o Netflix, que existe desde 1997 (fonte: Wikipedia). Inicialmente funcionando como o My Movies (um delivery de filmes em mídia física), o serviço evoluiu para o streaming de filmes e séries, que podem ser assistidos via internet. O serviço existia apenas nos EUA e no Canadá e, a partir de 5 de setembro de 2011, passa a funcionar também no Brasil.

Atualmente o serviço pode ser usado nos seguintes dispositivos (os que estão em negrito apenas no final de 2011):

  • Microcomputadores rodando Windows ou Mac OS/X
  • Sony Playstation 3
  • Nintendo Wii
  • TV's com acesso a internet (alguns modelos)
  • Microsoft XBox 360

Bom, agora que o serviço está devidamente apresentado, vamos a análise propriamente dita.

A interface

Com uma interface minimalista, o serviço funciona muito bem. Para assistir a um filme/série, basta clicar na sua capa. Ao passar o ponteiro do mouse sobre a capa é possível ver algumas informações do filme, como elenco, duração, etc. Alguns filmes e séries, estranhamente, estão com o nome original em inglês e outras em espanhol. Na mesma interface é possível dar cotações aos filmes (de 1 a 5 estrelas, incluindo a opção "Não tenho interesse"). O sistema do site usa um algoritmo (provavelmente redes neurais artificiais) para determinar qual seria a cotação dos filmes disponíveis que ainda não foram vistos pelo usuário, o que também é utilizado para sugerir novos filmes.

Assistir a um filme/série

O site usa a tecnologia Silverlight da Microsoft para a parte de streaming. É possível pular cenas e voltar para determinados pontos do filme com facilidade. Com um clique no botão "Tela Cheia", o filme ocupa toda a tela. Pena que não há opções de pan/scan para os filmes/séries feitos em Letterbox (4:3), o que acaba criando as famosas tarjas pretas verticais, vistas nas laterais da tela. Porém poderia ser pior: já vi casos de filmes que possuem tarjas na vertical e na horizontal, provocadas por alguma tentativa estúpida de duplo re-enquadramento.

Também é possível ajustar o volume e, caso a janela seja fechada, também é possível retornar ao filme no ponto em que foi interrompido. A interface é bastante leve, simples e intuitiva. Finalmente, nos filmes que possuem mais de uma opção de idioma, isso pode ser escolhido rapidamente e durante a exibição do filme.

Infelizmente nem tudo é perfeito: há vários filmes somente com a opção legendada ou apenas dublado, o que poderia ser um problema para filmes recentes. Como veremos a seguir, esse problema nem é tão grave. Mas há casos curiosos, como a novela "Lalola" (aquela do rapaz mulherengo que é transformado em mulher por uma feitiçaria de uma moça de uma de suas aventuras) que possui episódios legendados em português e outros sem legenda alguma. Tudo bem que a novela argentina é em espanhol, mas há momentos que fica complicado entender o que os "hermanos" e "hermanas" dizem.

Outro problema que não encontrei com frequência foi a falta de sincronia entre audio e vídeo. Uma boa conexão com a Internet minimiza esse problema, mas isto aqui no Brasil é meio difícil, né?

A seleção de filmes

A maioria dos filmes disponíveis no serviço são filmes que nós veríamos em programas como "Sessão da Tarde" ou "Cinema em Casa": vários filmes dos anos 80, como "Trocando as bolas" e "O príncipe em Nova Iorque", ou ainda "Selvagens da Noite". Todos com a dublagem clássica em português. Isso é bastante interessante porque, no caso específico de "Selvagens da Noite", o filme em DVD não possui a opção de áudio em português. Mais estranho, impossível. Ainda bem que é um estranho positivo. Quando há a dublagem em português, normamente é a versão antiga da dublagem. Um dos únicos filmes que usa a dublagem mais recente é o "De volta para o futuro". Uma pena porque a dublagem mais antiga é muito melhor que a dublagem atual, pelo menos na minha opinião.

Ainda não há muitos filmes recentes, desses que encontraríamos em locadoras ou em lojas de DVD como as Lojas Americanas, por exemplo. Para quem curte clássicos dos anos 80 e 90, é um prato cheio. Dá para assistir aos filmes praticamente um atrás do outro e, na medida em que assistimos e classificamos os filmes, o sistema de seleção separa mais filmes da mesma categoria. Ainda faltam alguns filmes que marcaram época na Sessão da Tarde/Cinema em Casa, mas a seleção realmente impressiona. Uma dica para o povo do Netflix: coloquem a opção de vender esses filmes clássicos com a dublagem clássica. Eles ganhariam uma boa grana, além de esfregar na cara das distribuidoras nacionais como se faz um serviço de qualidade para os seus consumidores.

Em relação às séries e desenhos, a predominância dos "clássicos" também acontece. É possível assistir a série "Contratempos" quase que na sua totalidade (por algum motivo, os dois primeiros episódios não estão disponíveis). O mesmo vale para algumas novelas, desenhos animados antigos (o famoso Sonic SatAM, por exemplo), entre outros.

E a qualidade?

Esse é o grande desafio do Netflix: ter qualidade em um país onde o preço da internet é tão extorsivo, e onde a qualidade do serviço ofertado é muito aquém para aplicações das mais mundanas. O site do serviço recomenda uma conexão de, pelo menos, 1 Mb/s e para ver o conteúdo com qualidade HD, 5 Mb/s. Essas velocidades ainda estão longe da média de velocidade do serviço ofertada por aqui por um preço mais justo. Apesar disso, a qualidade da imagem e do som é muito boa, flutuando entre qualidade de DVD (de vez em quando) para VHS (a maioria das vezes), com momentos de vídeos RMVB com compressão altíssima e qualidade baixíssima. Talvez com a instalação de servidores locais e a redução (só Deus sabe quando) dos preços dos serviços de banda (me) larga por aqui teremos uma qualidade de imagem mais estável. Felizmente não há "artefatos" (artifacts) provocados por uma compressão meia-boca, como vemos em alguns canais de TV a cabo.

Vale a pena?

Como dizia o poeta: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena". A alma aqui, neste caso, é o serviço oferecido pelo Netflix. Na minha opinião, vale sim os R$ 15,00 mensais. Assistir aos clássicos como "O feitiço do Tempo" ou "Eclipse Mortal" quantas vezes quiser, quando quiser e com a dublagem original é algo que aprecio e muito. Além disso você encontra alguns filmes/séries que acabam se tornando ótimas surpresas, como "A Família do Futuro" da Disney e a série "13 Medos" da Televisa (que dá um banho em praticamente todas as minisséries feitas pela TV Globo nos últimos tempos).

Antes de fechar o review, vou retomar um ponto que comentei lá no começo: o aluguel de filmes em mídia física. A Netflix começou exatamente dessa forma, cobrando 8 dólares mensais para esse serviço de aluguel de filmes em DVD (e, posteriormente, Blu-ray). Após consultar o mercado (e perceber que os custos operacionais da mídia física eram cada vez maiores) resolveu ofertar o serviço de vídeos em streaming pela internet, e continuaria cobrando os mesmos 8 dólares. Resultado: muita gente só utiliza o serviço online, desprezando totalmente a opção da mídia física. Tanto que a Netflix criou uma outra empresa (chamada Qwikster) só para servir o conteúdo em mídia física, de modo que eles pudessem se focar na oferta do serviço online.

Adendo

Por alguma razão, hoje (08/10/2011), o serviço deu um problema curioso. O site nacional não entrava, dando erro de timeout. Quando voltou a funcionar, apareceu o site norte-americano, que possui uma seleção de filmes/séries muito maior do que a nacional. O que será que aconteceu?

Bug do Netflix

Tipo: 
outros
Nota: 
8

out09